
curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos
Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa.
Entre pensamentos, me perco, até que os acordes me trazem de volta.
Quase desconhecidos, de uma canção que me é tão íntima.
Insinuam-se instrumentos distintos, me puxando à pergunta: será mesmo essa música? ou eis que se desmancha, trocando a profundidade dos baixos e das guitarras por um pulso leve, desses que desconcertam as pálpebras, quase um chamado de xilofone para ninar?
— “sempre em frente…” — minha voz interna ensaia acompanhar o som — doce, familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho — de algo que já não sei nomear. A melodia segue, e não. Algo em mim a suspende, feito estátua, por um instante. O cômodo parece recusá-la, e ela, a música, oportunista, se infiltra nesse hiato intangível, fazendo-se materialidade no vazio que me envolve.
— Um quarto — meu por anos, alugado, com mobílias fixas que nunca escolhi. Mobílias castanhas, como a cor dos olhos que a música traz às minhas retinas.
Tempo estancado, suspenso, quase palpável no espaço inexistente por onde minha respiração desfila seu ensimesmamento. Numa quinta-feira qualquer, em pleno horário comercial, sigo com os olhos, ainda deitada, o caminho desenhado por diminutas formigas.
Desfazem as rotas que elas mesmas tecem, antes tão precisas sobre o corpo inerte de uma libélula. Há uma vigília silenciosa embaixo da minha cama.
Peso morto no limite da minha esquadria — entre o de fora (minha varanda, o canto dos pássaros, o frenesi dos pneus) e o interno (a poeira da casa casada aos pelos brancos, a lâmina desbotada do piso; culpa da luz do sol, insistente, independente do humor celeste).
Inerte, numa última postura de elegância, um ponto de exclamação ao revés. Asas indecifráveis — como o motivo de sua morada final, meu canto.
Asas translúcidas, perfuradas. Linhas pretas, tão orgânicas quanto a chave suspensa na fechadura, há pouco mais de um metro acima do corpo do inseto — antes manjar de formigas; agora… procissão respeitosa?
!
Ritual orgânico, suspenso, leve. Já não respira — e ainda assim, persiste.
Assim como o castanho do armário, o castanho daquele que habita minhas retinas — e que, por reflexo e extensão, também se fazem castanhas.
A tempestade que chega é da cor desses olhos — quentes, atentos — que me observam do chão, em silêncio, entre os pelos que rolam por sobre o piso, como se guardassem o mundo para além do que o faro pode traduzir.























